O dicionário aurélio da língua portuguesa define clichê como “Lugar-comum, chavão, banalidade repetida com freqüência”. Pelo bem ou pelo mal, vivemos em um mundo repleto de clichês. Alguns desses são extremamente grosseiros e, como coisa banal, rapidamente esquecidos. Porém, de alguns deles nós gostamos, na medida em que beiram a cafonice mas miram alto na atemporalidade.
O norueguês Hans-Peter Lindstrøm construi sua carreira explorando determinados clichês sonoros, mais especificamente o clichê da disco music exótica feita por bigodudos italianos e máquinas analógicas fantásticas. Lindstrøm conseguiu ao longo de 7 anos de releases constantes se tornar o porta-voz do revival disco dos anos 2000. E talvez este não seja um posto em que se sinta completamente confortável. Talvez por ter se tornado um pouco limitador. Depois da epopéia cosmic disco de
II, álbum composto com o parceiro de longa data
Prins Thomas, talvez Lindstrøm sentisse a necessidade de botar o pé no chão e fazer um disco calcado em estruturas mais reconhecíveis. Outros clichês mais populares. É aí que entra Christabelle. Já tendo colaborado previamente, a dupla é mais um daqueles casos de “superprodutor encontra musa inspiradora”, e a tônica do disco poderia ser resumida como um duelo constante entre a proeza manipulatória de sons de Lindstrøm e o talento vocal de Christabelle. E essa dinâmica se condensa em faixas muito mais pop do que podemos esperar do norueguês.
Looking for What, a faixa de abertura do disco, começa com o voz de Christabelle tocada ao contrário, uma das pirações de Lindstrøm recorrentes no disco, e logo se desenvolve em um funk borbulhante que evoca tanto Parliament quanto Earth, Wind & Fire. Bem diferente da faixa épica
Where You Go I Go Too lançada na metade do ano passado, com seus 28 minutos de viagem linear e ascendente.
Let it Happen é um dos destaques do álbum. Lindstrøm faz citação de si mesmo em um house baleárico com senso melódico apuradíssimo e alma progressiva (como a própria
Where You Go…), muito apropriado para se degustar à beira de uma piscina com uma piña colada na mão enquanto o sol se põe. A evocação de clichês sonoros contiunua firme e forte em
Baby Can’t Stop, primeiro single do disco. A faixa lembra
Dr. Beat do Miami Sound Machine, a banda que lançou a cubana Gloria Stefan para o mundo nos anos 80. Mais uma vez, Lindstrøm passa raspando no brega mas acerta no deliciosamente divertido. Deve-se notar que o lado mais viajandão do norueguês fica um pouco de lado em
Real Life is not cool, emergindo apenas em alguns momentos como nos pads ondulantes e sinuosos de
So Much Fun e no breakdown psicodélico de
Never Say Never. Mas isso não é exatamente um problema, apenas uma constatação.
Lindstrøm & Christabelle - Let it Happen
Lindstrøm & Christabelle - Let it Happen
Lindstrøm & Christabelle - Baby Can't Stop
Lindstrøm & Christabelle - Baby Can't Stop
Lindstrøm & Christabelle - Never say never
Lindstrøm & Christabelle - Never say never
E se contasse apenas com a proeza musical de Lindstrøm este seria apenas meio disco. Como bom produtor que é, cunhou algumas faixas onde Christabelle pudesse mostrar que segura muito bem a onda. Em uma entrevista, Lindstrøm contou que Christabelle escreve todas as letras, e que algumas delas foram gravadas de improviso, como em
Keep up e
Let’s Practice.
Keep up é um interlúdio bem humorado, que antecede algumas das faixas mais energéticas do disco. Em
Let’s Practice, Christabelle sussurra e canta provocações semi-eróticas em cima de uma linha de baixo muscular e transparece uma sensualidade vintage própria de divas de ítalo disco obscuras. Muito segura com o fato de sua voz estar em destaque, a moça transmite uma sensação de malícia e inocência hipnótica.
Lindstrøm & Christabelle - Let's Practice
Lindstrøm & Christabelle - Let's Practice
Como todo bom clichê,
Real Life is not Cool não se leva muito a sério. É um álbum de audição leve e descompromissada. Talvez você sinta um pouco de culpa de gostar dele, mas a dupla entrega uma coletânea de faixas bem produzidas e gostosas de ouvir. Fica a sensação de que Lindstrøm está um pouco cansado do fardo cosmic disco e tenta abrir um pouco mais seu leque de opções. Super válido para ele, super legal para nós. Fica claro que o norueguês é um talento, com ou sem lugar comum.